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domingo, 23 de dezembro de 2018

AQUAMAN: HERÓI EM BUSCA DE SI MESMO

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AQUAMAN, O FILME
O faturamento ultrapassa trezentos e quarenta e seis milhões de dólares americanos nas bilheterias internacionais. Faz enorme sucesso o grandioso filme Aquaman, que permite muitas leituras. A primorosa tecnologia 3D nos revela as camadas do Fosso, nosso Fosso interior, desconfortável de ser visto pelo Ego. Particularmente, me toca o sem-número de elementos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Destaque para a saga do herói, o processo de individuação, a jornada em busca de Si mesmo, de tornar-se o rei todo-poderoso, que em essência já se é. Típico, o nascimento do pequeno Arthur (Jason Momoa), filho do faroleiro Thomas (Temuera Morrisoncom a rainha Atlanna (Nicole Kidmanda mítica, legendária, perdida Atlântida. Imerso no Si mesmo, nosso caminho para o Mar do inconsciente vai da superfície consciente diminuta para a Totalidade oceânica. Lá os mundos interno e externo, consciente e inconsciente, sempre estiveram unidos. Da criança Arthur vai emergindo o poderoso Aquaman no processo mesmo da busca do reino atlante, locus ancestralDesnecessário lembrar que não se trata do poder egoico, mas do poder autoral do Ser que Eu Sou, o Imanifesto no manifestado. Nesse caso, estar manifestado é estar com as mãos na Festa, nas Boas Festas, reconciliado com Ressurreição e Morte, a Vida infinita do Ser. Quais os outros conceitos junguianos presentes na riqueza do roteiro, na mestria da direção de James Wan?

Dois mundos aparentemente separados vivem um conflito insolúvel, o da terra, das águas superficiais e o do profundo, insondável Oceano. Em nós, o Oceano é maiúsculo, povoado de seres abissais e complexos. Eis a bela metáfora da nossa psique. Para Jung, além do inconsciente pessoal, existe também o inconsciente coletivo. Ele nos integra e constitui, sendo a morada de aspectos reprimidos, não aceitos pelo consciente, mas também de energias psíquicas fracas, incapazes de transpor o limiar da consciência. Forças arquetípicas, figuras mitológicas, estranhos monstros residem em algum lugar em nossa mente e constituem os complexos, dotados de autonomia. Por vezes somos por eles tomados. E nos desconhecemos. Esse que assim agiu não sou eu! 

O elenco conta com Jason Momoa (Aquaman), Amber Heard (Mera), Nicole Kidman (Rainha Atlanna), Patrick Wilson (Orm), Willem Defoe (Nuids Vulko) e Dolph Lundgren (Rei Nereus). Chama a atenção a cena descrita e analisada por um dos críticos:

"Depois de ser derrotado por Aquaman na Sicília, Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II) desperta ferido em uma espécie de laboratório/oficina. Lá encontra o Dr. Stephen Shin (Randall Park) investigando sua armadura feita com tecnologia de Atlântida. Os dois chegam a um acordo: Arraia Negra vai compartilhar com o Dr. Shin tudo o que sabe sobre o reino submerso, enquanto o cientista promete ajudar o pirata na sua vingança contra Aquaman".

No filme, ganha relevo também o mito judaico-cristão de Caim e Abel, a terrível batalha entre dois meio-irmãos, Arthur e Orm, pela conquista do poderoso tridente de Netuno, do arsenal simbólico do ancestral deus ou rei vencido-vencedor da Atlântida. Como se preenchem os arquétipos do Pai, da Mãe, do Puer, do Senectus em nós, essa personagem múltipla que somos, sabendo ou não disso? Quantas personas vestimos, com quais nos identificamos até a chegada da bem-vinda e necessária des-ilusão? 

O par Anima-Animus, aspectos complementares da psique humana, tem papel central na narrativa do filmeCom grande força física e treinadas estratégias de guerra, Arthur crê na própria capacidade, mas é a sua companheira de batalhas, Mera, que o inspira e aconselha. Qual a melhor direção a seguir? Eis o papel da anima para o homem. Arthur sente culpa pelo seu nascimento, pelo "abandono" sofrido. Quando menino, a mãe precisou retornar à Atlântida, pois tinha deveres para com a sua gente. Ela então pediu para não ser esquecida e prometeu ao marido e ao filho que retornaria. Em meio à crueza de gigantescas batalhas entre os diversos reinos das profundezas, cresce a autoconsciência de Arthur. A princípio resiste à ideia de se tornar rei e regente dos Sete Mares (inconsciente) e conquistar seus poderes e o tridente, símbolo mais alto desse feito. Só depois do encontro emocionado com sua mãe, a primeira face da anima, ele faz contato com suas emoções, seus medos, sua falta de fé, traços humanos, demasiadamente humanos. Só então ele vislumbra sua missão: libertar seu povo. Essa autorrealização ocorrerá só depois do reconhecimento, da aceitação de sua verdadeira natureza, a instância psíquica que Jung chama Self, Si mesmo, Imago Dei. 

Por fim, mas não por último, após terríveis batalhas externas, mas principalmente internas, essa odisseia psíquica, ao mesmo tempo pessoal e coletiva, permitirá ao herói, nós todos, o cumprimento do processo de individuação. O oceano sombrio da nossa inconsciência pessoal e coletiva algum dia, agora talvez, se tornará consciência de fato consciente? Só então emerge, emergirá das regiões mais profundas, sombrias, escuras nossa Cosmo consciência, consciência do Todo, Jardim do Éden, Atlântida, o paraíso mítico? Símbolo da nossa riqueza original, poder, abundância, plenitude, essa herança luminosa é nossa de pleno direito, pois existimos, vivemos e temos nosso ser no Espírito de Onde, em verdade, nunca estamos ou estivemos separados. Seria fictícia a narrativa de Aquaman? Fictícia nossa odisseia em busca do Ser essencial que somos? Que tipo de ficção seria essa desconhecida, misteriosa, infinita, poética existência? Seria ficção a Poesia que sopra incessante em você, meu caro Aquaman?